A Conversa
Documentação

Capítulo II

Conversa entre
Marta e Janaina

Conversa entre
Marta e Janaina
Pátio da Inquisição

Correspondência 1

Conversa entre
Marta e Janaina
Pátio da Inquisição

correspondência 2

correspondência 3

Conversa entre
Marta e Janaina
Pátio da Inquisição

Correspondência 2

Janaina Behling, 2019

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Em português, o pensamento contemporâneo sobre a gestualidade nos estudos linguísticos é quase restrito ao ensino das línguas de sinais. É possível que tal limitação seja remanescente dos gregos e dos romanos, quando oradores como Plauto e Horácio defendem, cada qual a seu tempo e modo, os subterfúgios e benefícios da leitura e da escrita silenciosas, algo de nada extraordinário, embora se possa inferir que haja uma relação cindida entre corpo e linguagem na qual o não dito passou despercebido ou ignorado, desde a Antiguidade, pela Retórica Clássica, escoando a gestualidade para campos de interface como a Educação e as Artes.

Quando nos conhecemos no Linha de Fuga o que mais me comoveu foi exatamente lembrar dessas coisas. Que gestualidade é coisa de surdo. Que até Plauto e Horácio talvez às vezes tenham desejado ser surdos. Que esse tipo de desejo parte do que se perdeu entre corpo e linguagem como legado do humano. E o humano, compreendemos juntas, numa tarde qualquer, durante o festival, é a casa onde mora a linguagem.

Daí por diante, a ideia da documentação passou a ser rastrear elos perdidos do corpo que fala em silêncio a partir de heranças subterrâneas do gesto. Entendi que seria este nosso acordo secreto como documentadoras. Na fortuna ou no infortúnio de cada uma a ideia na verdade passou a ser despir - não de vestimentas e pudor, mas de ação reflexiva dentro desses subterrâneos - qual o único gesto de cada um que talvez pudesse nos levar à gênese total de todos os gestos no espaço, de todos os corpos presentes, a atomização, a dizimação, o compêndio, a síntese, o resumo, o zero. A morfologia do gesto. A escrita do corpo. Rastrear a morfologia do gesto seria como submergir dos infernos dantescos de onde os surdos nos riem portando gramáticas. E construir, quem sabe, uma leitura corporal quase única porque nascida de um Festival performativo efêmero que não vai acontecer nunca mais, dessa forma. Porque o gesto é o que dá sentido ao movimento quando ele é nada. A partir de então, penso que entendi o que aconteceu com a Linguística. Tentou esconder de nós que a Torre de Babel não era feita de várias línguas, mas de várias gestualidades. E seria o fim do vernáculo. Não haveria Ilíada nem Odisseia. Nem Bíblia. Camões teria nascido cego das duas vistas.

Posso estar enganada. Posso não estar. Podemos. O jeito é perguntar aos participantes do Laboratório e deixar que digam o quê das tradições dos gestos deles constroem as pessoas humanas que são. Artistas, já sabemos. Queremos documentar o não saber de respostas simples dos participantes, cujas perguntas não digam nada, sequer façam sentido: qual lembrança te marcou? Qual episódio? O que é morfologia do gesto?

Quando você me explicou a relação entre planos de enquadre e perguntas aos participantes entendi que havia uma primeira pista. Nem toda parte do corpo corresponderia a um dizer inteiro e se o gesto é o que dá sentido a um movimento, qual seria o dizer inteiro de um gesto ao se repetir no corpo sem repetir, enganando até mesmo a câmera e seus enquadramentos?

É assim que assisto à apresentação de Saeed Pezeshki a primeira prova viva dessa hipótese de que Babel era feita de que a gestualidade é plurilingue e chegou antes do corpo para se fazer ideia. Ele fala espanhol e é de origem árabe, amando o que lembra e lembrando o que ama ao citar Agamben, mas nos advertindo, nessa busca pelo zero possível do gesto, que haverá um eixo, um eixo no qual o corpo se pertence em pé pela propria gravidade. E gira. E gira. E gira. E gira. A cada círculo completo vejo um manifesto de amor pelo centro. Talvez a forma da gestualidade se fazer mais que um processo em sentido horário.

No Pátio da Inquisição não sabíamos ainda, mas já falávamos sobre um plano de documentação que era totalmente diferente de nossas propostas iniciais, quando você falava em cegos e eu em surdos ou, de alguma forma, numa certa busca pela abstração dentro de tantas possibilidades de leitura e escrita utilizando corpos nos espaços da cidade de Coimbra. Eu dizia que estávamos em um nível de compreensão dessa abstração imersas, nós também, como documentadoras, no potencial criativo de pessoas que escrevem o gesto a partir da dança, a partir das artes visuais e a partir da poesia. São várias possibilidades de escrita, de materialização do gesto, ou dessa apropriação do espaço que se foi criando em função da leitura, da fala e do silêncio em movimento. Nesse caso, o gesto seria um caminho ou um vínculo para a conexão entre a vida real e surreal da cidade, embora não tenha sido possível imaginar essa conexão quando você, presa no quarto de um convento, com as janelas hermeticamente fechadas em paisagens oitocentistas, tivesse que dizer o mínimo, embora lhe restasse a fonte mais preciosa de todas as possibilidades de leitura: seu olhar destruidor engraçado. Nesse caso, fez todo sentido mesmo que o Linha de Fuga acontecesse em Coimbra e ocupasse esses lugares de não textos com os corpos de um não ali, dali, deles. Até mesmo porque, quando isso acontecer cada vez mais, essa ocupação, Coimbra poderá livrar-se de si mesma e ser tão mais linda e absurda em suas próprias abstrações que chegará, como você em sua oficina com a Luciana Fina, ao caricato das juventudes de preto e seus ritos humilhantes - cuja lembrança de um trecho de Milagre em Milão, de Vittorio de Sica sugere, lindamente - que poderiam sumir em vassouras voadoras para que nos deixem abstratos em paz, tentando falar com a cidade como fazem as pichações dos muros únicos, entre denúncias de infantilização do fascismo e seu mofado frescor.

correspondência 4

Correspondência 4 / Em que língua você sonha?

Janaina Behling, 2019

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Querida Marta,

Ao assistir sua última carta, decidi mergulhar mais uma vez em nossas  conversas sobre o próprio Linha de Fuga, dessa vez, tentando descobrir as intenções iniciais do evento, as intenções iniciais da documentação participante, os impactos sociais e históricos do Laboratório ao contextualiza-lo na cidade. Todos os depoimentos colhidos a partir das três perguntas que fizemos atestam algum sucesso no captar das abstrações da relação corpo-espaço a partir do gesto, principalmente, nos momentos em que seu trabalho desconstrói as falas que se pretendem mais lógicas em câmera lenta. A  fala do Saeed permite uma primeira definição efêmera sobre isso tudo, a partir da hipótese de que se a morfologia do gesto estrutura um mapa do corpo no espaço é possível chegar a Deus quando respeita seu eixo.

Então, é pensando em eixos que pergunto a você, querida, o que foi o Linha de Fuga?

O primeiro eixo é o institucional. Linha de Fuga foi um Laboratório e Festival internacional de artes performativas que decorreu em Coimbra, entre 9 de novembro e 1 de dezembro de 2018. Para lá da dimensão de Festival aberto ao público, com a apresentação de espetáculos em vários locais da cidade, realizou um Laboratório que pretendeu promover, de acordo com a curadoria, o encontro entre artistas nacionais e estrangeiros para intercâmbio de práticas artísticas. Ficou acertado com a curadoria que a documentação focaria o Laboratório, ou seja, aquilo que dá mais sentido à ideia de Linha de Fuga como não-lugar onde as coisas se encontram em busca do desconhecido. Faz sentido porque para Deleuze, por exemplo, Linha de Fuga é 'fugir' como um gesto que nos conduz a um novo modo de vida. E enquanto ato de coragem, 'fugir' possui o sentido de romper com o que é estabelecido: zona de desconforto entre o sabido, o não sabido, o imediato e o processo.

Nesse caso, creio que o segundo eixo é político. Linha de Fuga foi um evento que ultrapassou os limites cronológicos que costuraram pessoas de diferentes culturas na cidadezinha cuja língua come poeiras ibéricas e o folder do evento, que encontrávamos em cada buraco da cidade, era como um manifesto. Na cafeteria, no bar, no supermercado, na universidade, no banheiro da boate, distribuindo entre os passantes, simulando rótulos de vinho. Ali se podia ler “ainda que carreguemos nossas heranças culturais, hoje, num mundo global, nada impede o ser humano de encontrar e ser acolhido dentro de tribos (sic) com as quais se identifica, mesmo que em territórios longínquos de suas origens”. A parte mais legal: “não tem sentido a proteção das ‘nossas’ sociedades de outros povos”. A dimensão política do Linha de Fuga, enquanto Laboratório, era um jogo de espelhos tribais em rota de fuga e abstração que ultrapassa limites utópicos de cada apresentação dos participantes, ultrapassa mais que os artistas do Festival, seja no palco ou nos workshops, posto que acabam por ocupar no imaginário local espaços consagrados, de prestígio. A ocupação desses espaços por parte dos participantes do Laboratório para desenvolverem suas performances foi concedida sem praticamente qualquer dificuldade, havemos de saber mais sobre isso com a Curadoria, mas foi algo que, dentro de qualquer acepção micropolítica mínima, é quase um gesto anárquico. E então o corpo-espaço em fuga sai de dentro dos aparelhos públicos para as ruas, para os terrenos baldios, para as agremiações de trabalhadores abandonadas, espaços escolhidos única e exclusivamente pela junção da equipe técnica e a escolha voluntária de cada performer. Nesse caso, parte-se do micropolítico para o macropolítico, posto que a cidade inteira tornou-se um aparelho cultural artístico a céu aberto, seja pela interação mais ou menos dinâmica com a cidade e suas paisagens em movimento, seja por seus habitantes mais ou menos alheios a cada performance ou mais ou menos pegos de surpresa a cada intervenção, mais ou menos nativos ou estrangeiros. Não ter a medida certa de uma ação itinerante e intermitente acabou por permitir olhar para a cidade como um corpo abstratamente possível, de modo que, querendo ou não, foi possível provar que as autarquias institucionais derreteram.

Então, o terceiro eixo para mim é o estético. E é onde as palavras e as coisas se encontram, mesmo que o dizer dependa do corpo em linha de fuga num espaço desinstitucional e despolítico. O eixo estético trouxe à tona a liberdade de fazer perguntas, um cabedal de perguntas inclusive sem sentido prévio, somente possíveis em fuga e escolhemos apenas três: O que é morfologia do gesto? Qual a canção ou poesia que lhe vem à memória agora? Como descrever uma fotografia, a primeira que lhe vier à memória? Agora, eu acrescentaria mais uma: em que língua você sonha? Em rota de fuga é possível recolocar o que pareça estranho, o que pareça diferente, o que pareça talvez até imoral aos olhos mais embolorados no espaço urbano que desiste, afinal de ser tão fixo, às vezes pretensamente organizado e perfeito dentro até mesmo de concepções de língua. Acredito que uma pretensa castidade do português europeu em Coimbra precisa de uma linha de fuga urgentemente e a própria projeção em fuga do corpo-espaço em movimento pode ser crucial.

Quando pensava e penso no eixo estético que ia se formando ao longo do festival não podia nem posso me esquecer de um professor brasileiro, o velho Jorge Coli. Para ele, se queremos falar de estética olhando nos olhos dela, quem sabe, numa linha de fuga, é importante distinguir os artistas e os autores. Assim, artista é indivíduo, pessoa, ser concreto, como cada um de nós. Autor é a causa primária da abstração.

Para explicar como a distinção entre artista e autor é fundamental para definir a estética como um eixo do Linha de Fuga, penso no conceito de work-in-progress, que no contexto do Laboratório trouxe artistas ao mesmo tempo iguais e diferentes. Iguais porque  embalados por uma estética que, no mais das vezes, não sabemos se realmente esteve em função de desautorias muito importantes entre desterritórios, entre outros, porque é difícil trabalhar a necessidade de estrelato dos artistas; E diferentes pelo mesmo motivo, ou seja, porque é realmente um dilema ser autor em fuga que precisa também se derreter para não ser necessário brilhar, apenas (querer) fazer parte. Creio que mesmo sem percebermos, quando os artistas do Laboratório pretendiam de alguma forma pertencer a essa formatação convencional de artista-autor, a partir da relação corpo-espaço de si para si, íamos reconhecendo como artificial. E eu acredito que sem percebermos, também, começamos a tentar derreter as síndromes de estrelato, de modo que hoje faz ainda mais sentido termos nos juntado no plano de documentação que parte três de perguntas que até parecem aleatórias, mas são uma bússola em direção ao essencial em movimento. Retomo essa bússola falando de nossa metodologia de documentação participante, já que há o desejo de escrever o corpo da liberdade e não a liberdade do corpo.

Desejo que essa leitura lhe inspire o sonho mais doce com que possa se lembrar da gente no próximo vídeo.

Com carinho,
Janaina

correspondência 6

Correspondência 6

Janaina Behling, 2019

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Querida Marta,

Na última carta que lhe enviei falava sobre os três aspectos que me parecem pilares de uma compreensão do Festival e Laboratório Linha de Fuga, quais sejam, o aspecto institucional, o político e o estético. Nesta carta, quero me debruçar sobre o aspecto estético como exercício não apenas de avaliação, mas de abstração em fuga oferecida por cada participante a partir de diferentes dispositivos, tal como é esperado que aconteça na observação participante, a metodologia de documentação que ofereci para estar como documentadora do Laboratório. Na verdade, creio que uma colaboração importante de nosso trabalho para estudos etnográficos em geral, grosso modo, é a percepção de que talvez estejamos colaborando com alguma metodologia de “documentação participante”. Talvez essa expressão já exista e seja própria de outras áreas de pesquisa entre as ciências humanas que futuramente talvez possamos conhecer.

E entre as possibilidades dessa documentação participante quero deter-me, então, nos tipos de resultados que conseguimos oferecer enquanto documentadoras aliadas a uma curadoria, no mínimo muito interessante.

É preciso destacar que, em abstração, em fuga, não se trata exatamente de resultados o que quero escrever, mas de desejos de aproveitamento de todos os registros de campo que consegui colecionar ao longo do evento. Porque desejo é também uma abstração de resultados. Então, na verdade, penso que a ideia seja perceber os caminhos de fuga que também os participantes percorreram para além de possibilidades científicas previstas ou previsíveis, dando margem a possibilidades de autorias construídas entre lampejos de memória. Nesse caso, é muito importante destacar que o rigor da observação participante depende muito do rigor na coleta e armazenamento de dados empíricos de pesquisa. Talvez daí venham muitos estranhamentos das cátedras, ainda. Os materiais de coleta de prestígio são os inquéritos. De imediato é possível imaginar uma sala escura com uma luminária sob a cabeça de uma pessoa não querida (inquirida), com uma mesa entre ela e um ditador do outro lado no escuro. Esse tipo de metáfora me dá a sensação de que estou salva do meu próprio país, neste momento, quando um ditador é o presidente de um Brasil de fascismos nada infantis, mas igualmente cafona e caipira como das praxes conimbrisenses. Então, se fosse uma questão de simplesmente prescrever resultados, começaria por mim mesma, ainda na condição de participante do Laboratório e não documentadora, afirmando que o melhor resultado foi encontrar uma forma de me manter literalmente viva em terras estrangeiras, mas sem aqueles velhos exílios dos mártires de antigamente, facilitando que a cada momento juntos, nós, a curadoria, as equipes técnicas, os diferentes públicos, as cidades e os participantes, teçamos uma prova do que fui em fuga: um guardanapo de papel, um sabor, uma luz, um caderno com anotações estranhas, centenas de fotografias, amores transitórios, ideias desconexas, sopa todo dia.

Guardei anotações de uma conversa com o Sergi Faustino sobre como a dança é realmente um tipo de escrita porque suas palavras são projetáveis, mas num caderno sem linhas, mesmo se o corpo é standart. Esse caderno para ele é a vida, apesar de que sempre haverá um gesto mais projetável que outro. Depende do momento político, por exemplo. Também tenho memórias de Sara Jaleco, para quem a dança não escreve nada até que se possa escolher ou ser escolhido por um novo trabalho. Mas ela também reconhece que sem corpo não há texto. Sílvia Coelho acredita que escrever é libertário, mas me pergunta sobre o grau necessário de altruísmo para se fazer uma performance.  E eu não sei. Para Mish esteve em causa a diferença entre as línguas de uma dança para outra. Falamos da língua portuguesa na Europa e suas ausências, mas fiquei pensando bastante se o nível de non sense que ela alcança em suas performances é fruto de seu inglês australiano e de como o Laboratório poderia ser itinerante ao levar por aí um certo jeito português de sorrir por dentro. António Azenha chega a acreditar que o contato físico não significa mais proximidade para a conversação, diferente do que eu imaginava, porque se a abstração instalada na relação corpo-espaço, a partir do gesto, me parece pedir algo de coletivo, para o artista, nem sempre. Consigo compreender o que Azenha diz quando penso na Asli, vinda da Turquia para que tivéssemos certeza de que palavras são doces quando o corpo também for, mas isso não tem nada a ver com a pessoa que dança, de modo que o nível de abstração de um gesto pode conter arranjos guturais de individualidade. Lembro-me de uma conversa com Federica Folco sobre os eventuais exageros com que artistas acreditam em si mesmos, embora seja essa a ideia, acreditar em si mesmo. No entanto, se tudo que é demais estraga, havemos de imaginar ações coletivas, ainda que sozinhos em um primeiro momento, mas tanto quanto possível, para não sermos repletos de intenções limitadas demais ou expansivas, escorando discursos em ideologias de bolso. Memória e ideologia seria um belo tema para o qual o Laboratório poderia contribuir futuramente. Eu escolheria, para isso, estabelecer conexões entre os trabalhos da Karina Pino, da Mary Bley e da Camilla Morello. Em linha de fuga, parece-me possível compreender o que uma vaca, um ser andrógino da Amazônia e uma urna têm em comum, no caso, a consciência histórica de que o corpo é político, mas também emblemático, de modo que Sergi tenha razão. Seus dizeres vão depender do calor do momento e isso me faz pensar que memória e ideologia seriam dois ingredientes que fariam a mesma peça de arte corporal sobreviver ou não ao longo dos tempos. Não acredito que as ideologias sejam ponto de partida para as três, menos ainda, ponto de chegada, embora cada uma tenha sido visionária em fuga: Mary Bley não saberia que incêndios criminosos incentivados por Jair Bolsonaro envergonhariam o Brasil perante o mundo; Karina não sabia que esses crimes se dariam para defender gado de corte e Camila não sabia que as eleições presidenciais no Brasil é o que levariam tudo a isto. Ideologia é um instrumento de localização das memórias.

Pensando em instrumentações não posso deixar de pensar em Étienne, João Telmo e Valentina que, se em princípio não têm muito em comum, no fundo não puderam prescindir de objetos fundamentais para comporem algum dizer em fuga, na maior parte do tempo, sobre si mesmos. Nesse caso, um macacão de pedreiro não é um figurino, nem a pá de fazer cimento, do mesmo modo que um espelho não é para refletir o que se vê diante dele, pelo menos, enquanto um manequim desconjurado o possa. E entre desconjuras encontro os poemas de Valinho Gigas, as memórias de Zeca Afonso trazidas por Bruno Caracol e o documentário de Tiago Cravidão e sinto-me consternada, posto que entendo que meu pensamento os coloca em linha de fuga juntos, porque são portugueses, muito portugueses mesmo, a ponto de eu não conseguir enxergá-los em outros cenários de tão fiéis ao que espelham. Já Guilem parece me trazer outra perspectiva, uma certa coragem para não ter vergonha de empreender nisso tudo. Certa vez, inventei um rótulo de vinho ao estampar o flyer do evento numa garrafa, sugerindo que o Laboratório precisaria dessa pegada empreendedora, tão ecológica quanto as demais. Bebemos o vinho que havia, rimos e não mais falamos disso acompanhados por Nora, a doçura que escapa de tudo isso e volta em húngaro, sua língua materna em português de gringa. E finalmente, foi de Saeed que aprendi que dentro do seu eixo todo corpo gira, mas nem todos chegam a Deus. Aliás, e o Wellington Gadelha?  Não veio, que pena.

Abraço e até a próxima,
Janaina