Wellington Gadelha

performance
[Brasil / Fortaleza]

Interessado pelas relações estéticas no campo da cena a partir da composição, improvisação e dramaturgia, desenvolve também ações no campo da performance, vídeo-dança, instalações e processos imersivos em arte-tecnologia e arte sonora. Premiado no Rumos Itaú Cultural, 2017-2018 Integrou, em 2018, o Movimiento Sur que ocorreu no Chile (Santiago e Valparaíso). Teve obra aprovada na edição do 69.º Salão de Abril.

 

[Projeto proposto: Gente de Lá]

Wellington Gadelha desistiu do laboratório devido à situação política no Brasil. Estará presente no laboratório através de uma troca de correspondência e de imagens sobre o Brasil atual, pós eleições.  Aqui o seu texto, que publicamos na íntegra, explicando porque desistiu.

Laroiê, antes de tudo e todos.
Salve!
Vivo, resisto e atuo em Fortaleza-Ceará-Brasil tendo a arte e a cultura como frente de cuidado e resistência, sobretudo no meu lugar-grito, lugar-útero, lugar-rito, a favela.
Às vésperas das eleições do primeiro turno aqui no Brasil, fui surpreendido com ato de truculência policial que levaram jovens amigos e dançantes desse plano material. Doeu e dói muito, é recorrente a violência! Violências estruturadas e ações de racismo e ódio vem se alastrando cada vez mais por aqui. De uma ameaça de estupro à uma preta universitária que se transforma em ato covarde no dia seguinte à invasões policiais e atos fascistas nas sedes dos nossos coletivos e nas atividades em praça pública que realizamos, enquanto pretos e pretas, somos Abiku nessas terras tupiniquins. Aqui, quando se arranca da gente pessoas que por muito tempo já foram divididos pelas embarcações, se destrói um fortalecimento genuíno de um axé guerreiro favelado.
A essas alturas, venho comunicar meu desligamento da Linha de Fuga. Não tenho estrutura para sair daqui diante de tudo o que aconteceu e do que paira no Brasil, sobretudo nas nossas quebradas. Os tempos aqui são de friezas e dúvidas. Aqui está um tanto borrada as coisas. Porém e, ao mesmo tempo, os tempos do lado de cá também está e continua sendo de fortalecimento e de articulação a ponto de chamar os nossos pra guerrear.
Entendemos que diante do governo que se instaurou aqui, a partir do resultado dessa eleição presidencial, continuaremos sendo alvo de ações políticas e de um Estado que pouco dialoga com nossas finalidade ética, políticas e estéticas. Conhecemos de perto o que é uma política estruturada por balas e armas e, dizemos que, não queremos e nunca aceitaremos Bolsonaro e suas políticas tristes. Ele não e, nenhuma pessoa que venha de embate ao nosso axé. Que de ré e de benza testeira, todos e tudo que for contra o nosso axé, que encontre no buraco do pé o encosto e carrego que lhe leve!
Paremos aqui, nós de favela, de uma retórica que culmina numa militância cega. Sabemos hoje que não seremos heróis sozinhos. Precisamos interligar pontos e resistências periféricas. Começaremos de verdade um aquilombamento cotidiano, de nossas casas até as ruas.
Daqui nos manteremos fortes e resistentes a isso tudo. Da favela e do suor de todo nossos Nordeste, seguiremos firmes e articulados do que queremos e faremos o possível para nos mantermos coerentes e juntos daqui pra frente. Sangue no olho, força e luta!
Enquanto Wellington, estou morto?! Não! Não vou desistir, não vou! Danço para me manter vivo e gerar outras possibilidades de vida e de resistência. Danço os que se foram, os que estão e os que vão vim. Minha dança e o que faço, não é para mim, é para eles. Sinto que às vezes a dança sai do meu corpo. Sinto eles dançando comigo…
Quão os raios desse sol de sábado em Fortaleza-CE, 31 de outubro de 2018, força a nós e boa experiência e encontro para vocês. E que esse momento não seja espaço de disputa e vitrine, seja um espaço de escuta e composição política e certeira. Que essas linhas de fuga, além de ser uma teia sensível no seu teor e frágil na sua estrutura, sejam de fato um elã vital dentro de cada um e cada uma na reconstrução e transformação de nossas vidas. Sintam-se abraçados e abraçadas e espero, de verdade, que a gente se encontre logo.
Laroiê!

 

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